segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O Enigma de Kaspar Hauser

“Vocês não conseguem ouvir esses gritos amedrontadores que habitualmente chamam de silêncio?"

Qual é a verdadeira essência da natureza humana? Este questionamento vem intrigando os estudiosos das ciências humanas e inicialmente a Filosofia, desde os tempos mais remotos. Fazendo uma menção que tomo de empréstimo da Sociologia, esta assevera que o homem somente se constitui como tal quando interage com o meio social, ou seja, a sociedade é determinante na formação do indivíduo, dando-lhe os referenciais necessários para uma vida completa.
E se o ser humano é desprovido da convivência social? Como se constituirá a sua vida? Mesmo vivendo isolado do contato com outras pessoas, seria possível o desenvolvimento das potencialidades e habilidades ditas humanas? Partindo destes e de outros questionamentos que vão surgindo ao longo das pretensas respostas é que colocamos como fruto de análise do caso real de Kaspar Hauser. Um menino que apareceu pela primeira vez numa praça de Nuremberg (Alemanha), em 26 de maio de 1828.
O fato da população de uma cidade ter encontrado um jovem abandonado já é motivo de espanto, uma vez que ninguém sabia quem era ou de onde vinha. Mas, alguns sinais iam revelando aos poucos quem era aquele estranho. O menino trazia uma um pequeno livro de orações, entre outros itens que indicavam que ele provavelmente pertencia a uma família da nobreza. Mas, numa carta de apresentação anônima para o capitão da cavalaria local causou perplexidade o detalhe de que ele fora criado sem nenhum contato humano, em um porão, desde o nascimento até aquela idade (provavelmente 15 ou 16 anos) e pedindo que fizessem dele um cavaleiro como fora seu pai. Ele próprio se vê, de repente, num mundo estranho. O caso foi mostrado no filme de Werner Herzog, "Jeder für sich und Gott gegen alle" (em língua portuguesa, “Cada um por si e Deus contra todos”), de 1974, lançado no Brasil com o título "O Enigma de Kaspar Hauser". O filme mostra Kaspar Hauser na praça de Nuremberg com um olhar assustado. Na verdade tudo lhe é estranho: as dimensões, os movimentos, a perspectiva, o pensamento, a fala.
Acolhido na casa de um professor que se ocupou de iniciar sua socialização, que não foi tão fácil, pois o garoto não entendia nada do que lhe diziam; sabia falar apenas uma frase: "quero ser cavaleiro" e não sabia andar direito. Parecia um menino dentro de um corpo adolescente. Seu comportamento estranho para os padrões sócio-culturais estabelecidos, causava um misto de espanto e interesse. Era visto como um "garoto selvagem," apesar de demonstrar ser dócil, simples e gentil. Possuía algumas habilidades peculiares interessantes: conseguia enxergar muito longe, no escuro, e sabia tratar os animais, principalmente os pássaros. Ao mesmo tempo tinha medo de galinhas e fugia delas aterrorizado. Numa das cenas do filme, atraído pela chama de uma vela, colocava seu dedo no fogo e, ao sentir dor, aprende que a chama queima.
Graças à sua curiosidade infantil e memória notável, aprendeu várias coisas muito depressa. Kaspar Hauser tornou-se uma espécie de atração por sua história de vida diferente. Todas as pessoas da cidade queriam vê-lo. O filme de Herzog mostra, em uma das cenas, K. Hauser junto com outros indivíduos, tidos como anormais (um anão, um índio e uma criança autista), em exposição num circo.
Com o tempo aprende a falar. Mas mesmo a linguagem não lhe permite capturar esse estranho mundo em que vivem as pessoas. Numa das passagens do filme Kaspar Hauser olha, do campo, a torre em que fica seu quarto e observa que ela é muito menor do que ele próprio. "Como pode ser isto?" pergunta.
Kaspar Hauser se sente confuso, pois não tem a mínima noção de que a distância de onde observava criara uma perspectiva que fazia com que a torre parecesse menor do que realmente era.
Quando seu tutor aproxima-se com ele da torre, vem a observação: "Como esta torre é grande! O homem que a construiu deve ser muito alto!”.
A paisagem em que Kaspar Hauser foi colocado, apesar de explicada pela linguagem, pelas palavras, por signos lingüísticos, permanece, para ele, indecifrável. Muitas vezes, pedia para contar histórias que imaginava, mas não conseguia verbalizar o conteúdo pensado.
Tudo parecia ser complexo para Kaspar Hauser, mas, como ele poderia compreender o significado das palavras e que elas representam coisas, se não passou por um processo de aprendizado e socialização necessários para que compreendesse a representatividade dos signos? Ele próprio se via como um estranho, deslocado, frágil e impotente diante de uma realidade que não conseguia compreender, pelo menos não da forma como esperavam que ele compreendesse. A socialização e o processo de conhecimento da realidade é regulado por uma contínua interação de práticas culturais, percepção e linguagem. Como Kaspar Hauser foi desprovido de tais práticas ele não consegue captar o mundo como o faz a sociedade que o cerca.
Percebemos ao longo do filme que Hauser enfrenta com perplexidade as convenções sociais, os dogmas religiosos, as certezas científicas, vendo tudo com olhos virgens e puros e, portanto, desabituados a enxergar como normal o que assim foi estabelecido. O filme reflete sobre a influência da linguagem e do histórico cultural na percepção da realidade. Isto é, as coisas que aprendemos (gramática, lógica matemática, religião, conhecimentos históricos, comportamentos culturais etc.) afetam a nossa capacidade de compreender os fenômenos que nos circundam. Isto acontece pois, ao associarmos uma idéia a uma palavra ou a uma imagem, estamos limitando o significado da idéia em função de uma definição restrita. As idéias passam a expressar só o que as palavras e imagens conseguem expressar, e não sua abrangência original (antes de serem aprisionadas por palavras e imagens). É como se as idéias fossem coloridas, mas nós só conseguíssemos expressá-las em preto e branco, sacrificando sua integridade original.
Diante de tantas tentativas de entender “O enigma de Kaspar Hauser”, seja como for, ele é incompreendido pela sociedade, que enxerga nele uma anormalidade, tentando até procurar em seu cérebro (após sua morte) uma resposta neurológica para sua condição.
Hauser foi assassinado com uma facada no peito, em dezembro de 1833, nos jardins do palácio de Ansbach. As circunstâncias e motivações ou autoria do crime jamais foram esclarecidas, apesar da recompensa de 10.000 Gulden (c. 180.000,00 Euros) oferecida pelo rei Luís I da Baviera.

Título original: Jeder Für Sich und Gott Gegen Alle (Alemanha, 1974)
Diretor: Werner Herzog
Elenco: Bruno S., Walter Ladengast, Brigitte Mira, Michael Kroecher, Hans Musaeus, Willy Semmelrogge, Florian Fricke
Extras: Biografia de Herzog e trailer
Idioma: Alemão
Gênero: Drama
Duração: 109 min. Cor

Fonte:
Maria Clara Lopes Saboya. O Enigma de Kaspar Hauser (1812?-1833): Uma Abordagem Psicossocial. Psicol. USP. vol.12 no.2 São Paulo 2001

2 comentários:

Wanderson disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Wanderson disse...

esse filme éstarsendo e é muito interessante. Você fez algo imprecionamte gostei muto...
abraços e parabens!!!!